Eu caminhava ao lado de Matheus e
riamos das histórias de terror que Giulia me contou em sua festa. É claro, que
em uma festa de 13 anos o nosso principal assunto eram esses contos horríveis.
Caminhamos ao longo de toda a rua, sob meia luz... A iluminação daquela parte
da cidade era realmente precária. Até que chegamos a pracinha, que aliás, era
enorme. Havia árvores grandes e um imenso gramado, os postes de luz estavam em
sua maioria quebrados e a luz dos que estavam inteiros, oscilava... Segurei no
braço de Matheus e pedi para que me acompanhasse até o outro lado da praça. Ele
não podia, precisava chegar logo em casa, tínhamos horário para estar em casa.
Eu morava ao norte da praça, e ele só precisava virar a rua. Então era isso, eu
iria sozinha. Despedimos-nos e ele dobrou
a esquina. Adentrei no imenso e escuro gramado. O vento balançava as folhas das
árvores e eu caminhava quase correndo. Ia pisando em folhas secas, grilos
cantavam, e o barulho do vento me arrepiava. Lembrava-me das histórias de
Giulia e tremia, imaginando que a qualquer momento uma mão poderia saltar do
chão e me agarrar pelos pés. Matheus, maldito, por que não me acompanhou? Ouvi
um barulho logo atrás de mim e meu coração disparou. Olhei, com medo do que
iria ver, mas não era nada além de um cão revirando o lixo.
Respirei fundo.
Ao longe eu podia ver uma silhueta.
Estava parado ao lado de um poste iluminado. Era um homem. Por um instante
fiquei com medo, não conseguia ver o rosto dele para saber se o conhecia...
Depois pensei direito e o medo passou, afinal, se uma mão meio morta meio viva
saltasse da grama e me agarrasse pelos pés, ele veria e com certeza me
ajudaria. Continuei caminhando, e a
silhueta foi tornando forma mais nítida. O que era apenas um vulto negro, agora
era um homem, de aparentemente 35 anos, com um paletó preto, gravata, e uma
maleta. Um possível empresário que se perdera por ali... Tinha uma aparência
agradável, cabelos negros bem penteados, pele alva, era alto... Mamãe iria se
interessar por ele. Pensei. Me aproximei encarando-o, ele sorriu. Eu estava a
alguns passos dele quando ele perguntou:
--
Como se chama garota?
Eu
parei e olhei-o nos olhos... Tinha belos olhos, castanhos esverdeados que
refletiam a luz oscilante entre nós.
--
Bianca... Mas quase ninguém me chama assim, me chamam de Bia... E você, como se
chama?
Ele
adiantou-se alguns passos sorrindo. Estava agora a menos de um metro de mim e
me estendeu a mão.
--
Você já viu a casa na árvore que tem aqui?
Apontou pra uma árvore, e eu
balancei a cabeça sinalizando que não. Ele segurou minha mão e deu alguns
passos. Eu fui junto. Comecei a pensar que não era seguro, que minha mãe me
mataria se soubesse... Hesitei. Ele parou, olhou firmemente em meus olhos e
sorriu.
--
Não precisa ter medo, eu só preciso que alguém cuide dela para mim. Eu fiz para
meu filho, mas ele só volta da casa dos avós daqui três dias... Preciso de
alguém para cuidar da casinha enquanto isso... Por favor?
Como eu poderia dizer não? Então
caminhei ao lado dele, ainda segurando sua mão.
Nos afastamos cerca de cinco metros do poste iluminado, e chegamos a uma
grande árvore, parecia a maior de toda a praça.
Paramos e olhamos a casinha no topo por alguns instantes. Não era muito
grande, mas me parecia legal... Que criança nunca sonhou com uma casa na árvore?
Ele puxou uma corda e uma escada se desenrolou até o chão. Fiquei surpresa, por
mais simples que fosse aquilo me fez brilhar os olhos. “Matheus iria adorar
isso.” Pensei. Subi primeiro. Ele veio logo atrás de mim, quando cheguei ao topo,
a casinha estava escura, mas apesar da penumbra alguns raios de luz passavam
pelos orifícios da madeira então eu pude ver, havia um colchão no chão, um pote
de doces de um lado e algumas velas do outro. Ele subiu. Acendeu as velas e
então eu vi, havia realmente fotos do filho dele, por toda parte. Era um garoto
aparentemente mais velho que eu, talvez tivesse uns quinze anos... Era bonito,
cabelos escuros e um belo sorriso. Tinha os mesmos olhos que seu pai. A casinha
que parecia pequena por fora, era na verdade um tanto quanto espaçosa. Então
ele trancou a portinha por onde entramos. Me assustei com o gesto, mas não dei
muita importância. Segurei algumas fotos e comecei a olhar. O homem estava
sentado no colchão. Então eu percebi uma pequena janela. Me virei de costas
para ele e olhei pela janela. A vista era linda. Fiquei alguns minutos olhando.
Senti que ele se movia, mas não tirei meus olhos da paisagem. Ele se aproximou
de mim por trás, e antes que eu me virasse me segurou e colocou um pano sobre
minha face. Desmaiei.
Meu corpo estava dormente quando acordei.
Estava tonta. Mas percebi que ainda estava na casa da árvore. Tentei mexer meus
braços, estavam amarrados. O mesmo com minhas pernas. Estava nua, tremendo de
medo, de frio... Senti algo escorrendo pelo meu pescoço... Era quente e
viscoso. Na hora entendi que era sangue. Tentei gritar, senti uma dor enorme na
garganta. Cuspi sangue. Tentei me sentar chorando, mas duas mãos seguraram meus
ombros e os empurraram para baixo. Cai deitada novamente. Olhei para cima e vi
o homem que antes tinha uma aparência agradável e simpática, agora estava com a
face ensanguentada e tinha um sorriso sádico e doentio. Tentei implorar para
que me deixasse sair, mas novamente a dor insuportável na garganta, e nada de
voz sair. Cuspi mais sangue. Ele ria, gargalhava.
-- Você dormiu por vinte minutos
minha querida, e foi o tempo suficiente para eu dar um jeito na sua delicada
voz de anjo...
Ele puxou sua maleta e a abriu.
Dentro havia tesouras, alicates, facas, e outros instrumentos de cirurgia.
Todos ensanguentados. Tremi. Ele tirou uma pequena caixa, e a abriu me
mostrando o que havia lá dentro. Um pedaço de pele e músculo encoberto de
sangue. Aquilo me revirou o estômago. Ele Sorriu.
-- Vai vomitar? -- Soltou uma
gargalhada. -- Eu não faria isso... Removi suas cordas vocais para que não
pudesse gritar... O silêncio é maravilhoso não? Se vomitar sentirá tanta dor
que é possível que desmaie novamente... E não queremos isso não é querida? -- Tocou
minha face, acariciando-me delicadamente -- Quero você bem acordada, para ver e
sentir tudo que farei contigo...
Incessantes lágrimas escorriam pelo
meu rosto, se misturando com o sangue que escorria de minha boca e pescoço. A
dor era tanta que o resto do meu corpo estava dormente.
Ele puxou a maleta para mais perto.
Fechei meus olhos. Respirava fundo tentando pensar em como escapar... Aquilo
era pior que a maldita mão de zumbi agarrando meus pés! Senti algo gelado
encostando em meu seio, abri os olhos. Um bisturi. Gotas de sangue começaram a
brotar sobre minha pele. Ele sorria. Estava sem camisa... À medida que as
pequenas gotas escorriam sobre meu seio, e depois costelas, o homem passava o
dedo recolhendo o sangue, e em seguida passava em seu próprio peito. Tinha
feição de desejo, e gemia alto. Então sentou-se por cima de mim, abrindo o
cinto. Eu chorava silenciosamente, mas não podia, não conseguia fazer nada.
Então ele tirou de debaixo do colchão um revólver, deixou-o ao lado da maleta.
E agora sério disse com a face colada a minha.
-- Olha garota, eu não irei te
matar. Deixe-me ter um pouco de diversão, e então eu lhe deixo partir. Mas
qualquer gracinha sua, minha amiga aqui está engatilhada e louca para vomitar
uma bala na sua testa.
Tentei me mexer, mas imediatamente
ele pegou a arma e direcionou na minha testa.
-- Minha florzinha, eu arranquei
suas cordas vocais, não seus tímpanos. Acho que me ouviu bem não? Agora, fique
quietinha e deixe-me brincar.
Arrancou o cinto e fez o mesmo com
as calças. Meus seios estavam dilacerados. Minha barriga era o novo brinquedo.
Ele fazia cortes profundos e quanto mais o sangue jorrava, mais algo gemia.
Passava seu peito sobre minha barriga e seio ficando então encoberto de sangue.
Do meu sangue. Aproximou sua face da minha, olhando fixamente em meus olhos
cheios d'água. Senti sua respiração perto de minha boca, então ele me beijou.
Num ato desesperado, o mordi com toda a força que me restava. Soltou um grito.
Agora ambos estávamos com a boca sangrando. Passando a mão sobre seu lábio viu
que agora o sangue dele se misturava com o meu. Sorriu.
-- Que sádica você mocinha... Mas
quem proporciona dor aqui sou eu.
Então
tirou outro bisturi da maleta e aproximou do meu rosto. Cortou minha bochecha.
Eu sentia o líquido quente escorrer. Ele foi passando vagarosamente o bisturi
pelo meu pescoço, seio, barriga, coxas, até chegar à minha virilha. Eu soluçava
e engasgava com meu próprio sangue. Aprofundou o bisturi lá cortando até parte
de minha coxa. Eu queria gritar. Mas a dor em minha garganta me impedia. O
corte também doía muito, sentia como se meu coração pulsasse na minha virilha,
mas meu corpo estava dormente ainda, eu só sentia minha garganta e agora o
corte profundo... Os outros cortes só me faziam sentir o sangue escorrendo. Queria
sair dali... Mas se saísse o que diria aos meus pais? Eu me sentia suja... Imunda...
Uma porca imunda. A cada movimento do corpo dele sobre o meu eu me sentia
necrosando. Estava apodrecendo viva... Era melhor morrer! Comecei a desejar que
ele me matasse logo. Então tentei chuta-lo. Inútil. Ele novamente pegou o
revólver e encostou na minha testa.
-- Pare de gracinha.
Gesticulei
com a boca "me mate". Ele gargalhou.
-- Como é? Me Mate? Foi isso que eu
entendi? Não, não vou te matar. – Ele ria alto -- Não ainda. Não sou necrófilo
querida.
Eu
tinha hemorragias. Logo morreria. Rezava para morrer logo. Tinha medo de que o
pior ainda estava por vir. E eu estava certa.
Por fim, ficou nu. Gemia e se
masturbava com as mãos pingando sangue.
Debruçou-se
sobre mim. Eu estava com as pernas amarradas juntas o que o impedia de me
violentar daquela forma. Infelizmente ele logo percebeu isso. Levantou-se
calmamente, desamarrou meus pés. Tentei acertar-lhe outro chute, mas já havia
perdido muito sangue, estava fraca. Ele segurou com facilidade minha perna e as
amarrou novamente. Agora, abertas. Eu chorava e gesticulava com os lábios
"me mate, por favor, me mate" Ele ria. Debruçou-se novamente sobre
mim. Agora tinha acesso total ao meu corpo nu. O que senti foi estupidamente
doloroso e humilhante. Sentia como se minha bacia estivesse sendo quebrada ao
meio. Como se ele estivesse cortando-me por dentro. Pior que a dor física, era o
nojo que eu sentia, nojo dele e nojo de mim mesma. Eu me sentia cada vez mais
imunda, perdi a vontade de lutar por minha vida, eu não merecia viver. Estava
suja, SUJA! O que pensariam de mim? O que meus pais pensariam? O que Matheus
pensaria? Estúpida imunda! Mas, ele não parava. Perdi completamente a força.
Minha visão escurecera e os gemidos, antes altos, agora me pareciam baixos e
distantes. Meu corpo tremia. Eu só conseguia pensar em como queria que aquilo
acabasse. Como queria que tudo acabasse... Inclusive minha vida. Não tinha mais
forças nem pra chorar. Fechei os olhos e deixei que minha cabeça despencasse
para o lado, como se tivesse desmaiado. Levei um tapa.
-- Não durma! -- Disse em meio a
gemidos
Notei outra coisa, o cheiro era
horrível. O suor, misturado com o cheiro do sangue, e aquele cheiro de... Era
um cheiro que eu não sabia distinguir... Era como se fosse cheiro de... Sexo.
Mas eu não sabia dizer... O cheiro insuportável do corpo dele roçando o
interior do meu. Embrulho-me o estômago. Novamente fiquei tonta... Tudo girou,
como quando papai me girava pelos braços e depois me punha de pé... Mas, papai
estava morto... Este pensamento atingiu-me no peito e uma lágrima escorreu pela
minha face.
Mas,
a dor era insuportável, tinha perdido muito sangue, estava sendo violentada, o
fantasma de meu pai me assombrava... Não suportei mais. Desmaiei.
Acordei 3 dias depois, em um quarto
de hospital. Olhei para o lado, minha mãe segurava minha mão chorando quando
percebeu que eu acordara. Abraçou-me e chamou o médico.
Um homem de aparentemente 35 anos,
alto, pele alva, cabelos negros bem penteados, e olhos castanhos esverdeados.
Mamãe abraçou-o agradecendo por tudo e sorrindo para mim. É, mamãe se
interessou por ele.
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