sábado, 5 de outubro de 2013

...

Que bom é ser poeta,
e poder amar
sem sentir
Poder sofrer
sem chorar.

Que bom é poder inventar
sentir nos outros
o sentimento fluir.
Que bom poder rimar
Tua imaginação
Com outro coração. 

Cavaleiro do Negro Olhar

Cavaleiro do negro olhar,
Quem és tu a me admirar?
Óh, doce cavaleiro,
Leve-me a galope ao teu reino,
E então, adormeça em meu seio

Deixe-me desvendar-te mistérios,
Olhar em teus olhos sérios,
Leve-me cavaleiro,
Percamo-nos em teu reino.

Perca-se então, em meu ar,
Resgate-me de meu anseio,
doce cavaleiro,
descanse seu olhar,
durma em meu seio. 

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Panaceia

Entorpecida no desejo do ser
A alma afoga-se em turvas águas
Vermelho, frio
Efêmero desejo
Estúpido pudor,
Cobre-lhe a face
As retinas fatigadas
Sondam-lhe o corpo,
Sem amor
Escrúpulos,
estúpidos
As retinas já não vêem,
A escuridão se instalou
Este desejo adocicado
É panaceia da alma,
Ilumina as trevas
Mas a alma ainda afoga-se
nas turvas águas da vida
Que levam......... e lavam........
Essa noite impetuosa.

Palavras

Elas voam em torno de mim
vem quando querem
e se vão rapidamente
as vezes me acordam
na madrugada me tiram o sono
Não são propriamente belas,
tão pouco feias,
são simples e singelas,
as vezes chegam com lágrimas nos olhos
Eu... as consolo
Outrora, me fazem rir.
Parecem ridículas 
Ah... essas palavras...
Entende-las, não é fácil
Entender o que querem de mim,
é ainda pior.
Palavras...
São mulheres. Belas, fortes,
e ainda assim, delicadas.
Palavras...
São mulheres... ainda mais complicadas. 

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O dia que a Guerra acabou.

   Era mais um dia difícil, estávamos no meio do verão e chovia muito... A trincheira estava quase transbordando de lama, e era no meio desse lamaçal que eu me encontrava. Eu tinha várias feridas em minha pele, porém dor nenhuma era maior que minha fome, a comida havia acabado à 3 dias... A lama cobria-me até os ombros e eu estava com os braços erguidos para segurar meu fuzil... (Lembro-me quando entrei no exército e minha alegria era ver meu fuzil. Hoje, eu jogaria ele longe...) Ao meu lado, dois grandes amigos que me acompanhavam desde quando entramos nesse inferno, há 6 meses... Richard Starke e Chil Fhörn, ambos mais novos que eu. Starke não deveria ter mais que 22 anos e Fhörn uns 25... Eu sentia o peso da juventude que eles estavam perdendo naquele inferno lamacento... Sentia-me de alguma forma culpado... Mas, a culpa não era minha. A guerra não era culpa de nenhum de nós...  E eles eram garotos fortes e tinham muito mais chances de sobreviver do que eu... 
    O dia começara calmo, nenhum disparo de ambos os lados... Eu conversava distraidamente com meus colegas, em um efêmero e raro momento de descontração... Por um segundo, consegui esquecer que estava absorto em lama e sangue... Sorríamos até. Foi quando Rubens, o mais velho de nós, gritou correndo para a trincheira. No início não entendemos o que ele gritava, era polonês e ninguém compreendeu. Tomou ar por um instante e repetiu em alemão... "As bombas estão chegando! Elas vão destruir tudo! Ouvi dizer que são tão grandes e devastadoras quanto as lançadas sobre o Japão!" Todos se apavoraram. Mas não havia para onde correr... A trincheira já era o lugar mais seguro... Fhörn começou a subir para se esconder em outro lugar, segurei-o pela perna. Ele me acertou um chute e continuou a subir... Estava quase no topo quando seu capacete caiu de sua cabeça, ele virou para pega-lo... Não teve chance. Um tiro acertou-lhe a nuca certeiramente. Desabou. O sangue que escorria, não se diferenciava muito da lama e logo, ambos eram uma massa viscosa homogênea.  Alguém logo levou o corpo. 
    Essa noite não dormi. Chorei apenas. E a dor de perder um amigo, foi maior que minhas feridas, ou que minha fome. Starke estava em choque. Chorava como uma criança. O que me foi muito comovente, já que antes da guerra, ele trabalhava na perícia da polícia, estava acostumado a lidar com isso, e desde quando entramos na guerra, não havia demonstrado nenhum sinal de sentimento a respeito da morte. Fosse medo de sua própria, ou compaixão pela dos outros. 
     A manhã seguinte começou turbulenta, aviões passavam jogando mísseis, e o tiroteio era intermitente. Eu atirava, cego de ódio, com desejo de vingar a morte de meu amigo. Starke estava abaixado na trincheira, escondido. Foi quando um avião alemão passou e jogou mísseis na tropa inimiga. Mas, além dos mísseis, o avião soltou à uns 10 metros da trincheira, um pacote de suprimentos. Não pensei duas vezes. Sai correndo entre os tiros e bombardeios em direção ao pacote, um soldado inimigo veio em minha direção, acertei-o na face com um tiro. Eu não pensava em outra coisa, a não ser no meu estômago, que já doía de fome, e nas feridas, minhas e de meus amigos que precisavam de ataduras... Eu não podia perder aquele pacote. Me atirei sobre ele. Era pesado demais para carregar. "QUE DIABOS DE HOMENS BURROS SÃO ESSES? COMO PODEM ME MANDAR UM PACOTE QUE NÃO POSSO CARREGAR? QUEREM QUE EU MORRA?" gritei. Então comecei a arrastar o enorme pacote em direção a trincheira, parando algumas vezes para acertar um ou outro inimigo. 
    Não era normal soltarem pacotes como aqueles ali, no meio da "terra de ninguém"... Mas dessa vez soltaram. Rubens e outros 4 homens atiravam sem parar ao meu lado, enquanto eu fazia ataduras nas feridas de Starke... Ele parecia melhor. Voltamos a atirar. 
    Eu desejava que isso acabasse logo. A imagem do jovem Fhörh me vinha a mente a cada tiro que eu dava... O ódio ia me tomando o corpo... Sai da trincheira, corri em direção ao batalhão inimigo. Um tiro acertou-me o braço esquerdo de raspão, cai para trás... Levantei-me estonteado e me escondi atrás de uma pedra. Atirava sem parar. Ouvia o baque dos corpos ao chão, se confundindo com as bombas e os tiros... Amarrei um pano em meu braço e voltei a correr em direção ao campo inimigo. Recebi mais um tiro, dessa vez no meio da coxa direita. Cai, não podia me mexer... O barulho foi ficando cada vez mais distante, e minha visão foi escurecendo... Desmaiei. Lembro-me como se fossem fotos, de eu ser carregado por um dos homens de meu exército até um caminhão. Depois lembro-me de pessoas de branco, médicos, cuidando de mim... Escuridão. Depois disso, apenas escuridão. 
    Acordei 2 dias depois. A enfermeira, uma senhora gorda e velha estava com um sorriso na face. Deu-me um pouco de água. Tentei falar algo, mas falhou-me a voz. Então, a enfermeira sorrindo comunicou-me "Está acabado. A guerra acabou!" Me abraçou. Aqueles gordos e flácidos braços me apertaram até que eu ficasse sem ar, antes mesmo de eu processar a informação. Então, quando tomei ar novamente, consegui entender... A guerra acabou... A guerra acabou... Não mais tiros... Não mais bombas... Não mais mortes... A guerra acabou... Sorri e uma lágrima escorreu-me a face. Pensei em Starke... Estaria vivo? A enfermeira pediu para que me deitasse em uma maca, e me levaram até um avião... Mal via a hora de reencontrar minha família... A guerra acabou...