Abre seus olhos em meio a imensidão escura. Escuta um sussurro baixinho ao seu lado, não compreende o que diz, e não pode enxergar o que é. Talvez sinta um pouco de medo neste momento. Talvez volte a dormir. Senta-se em sua cama, olha a hora... Ainda restam algumas horas de sono... Mas será que conseguirá dormir? Ouve o sussurro mais uma vez. O que ele diz? Deita-se e deixa que seu pensamento voe até um lugar distante. Mas a voz continua a chamar e chamar... O medo está começando a tomar forma. E essa forma começa a incomodar... Tenta dormir, mas o medo continua lá, ao seu lado chamando-a. Sente uma leve carícia em seu rosto. Não enxerga nada. As mãos frias deslizam por sua face até seu cabelo espalhado pelo travesseiro. A voz que antes causava-lhe medo, agora tornou-se amena e a acalma. Mas a forma de vulto na escuridão ainda parece assustadora... Ela resolve tentar vê-lo... Sua curiosidade é maior que qualquer medo. Pega seu celular e aperta qualquer botão. Vira a luz para o lado onde acha que o vulto está, mas a unica coisa que vê é a parede ao seu lado. Fecha os olhos e pede por pensamento que apareça... Abre os olhos. Nada. Apenas a parede com seu claro e deprimente branco encardido... Vira-se e aponta a luz do celular para o resto do quarto. Ursos de pelúcia, bonecas, posters, roupas, tudo que compõe seu mundinho. Mas aquela ''coisa'' ainda está ali... Em algum lugar, e ela tem que acha-lo. Sua curiosidade é intensa. Joga seu celular para debaixo da coberta e fica com os olhos arregalados na esperança de ver algo no meio daquela enorme escuridão. A voz volta a chama-la ao lado de sua cama... Agora a voz é mais clara, e chama seu nome... Sente seus cabelos sendo acariciados levemente. Ela pede para que ele apareça, mas a voz fica mais fraca e a carícia para. Alguns instantes se passam. Ela acende a luz do celular novamente e balança a luz pelas paredes do quarto. Como em uma dança entre a luz e as sombras, o vulto passa pela luz e se esconde nas sombras. Por que não aparece? Ela pergunta. A voz responde rouca do outro lado do quarto. A resposta é baixa, e quase impossível de se compreender. Ela continua com a luz, seguindo os ruídos... Nada se vê... Parece que o vulto se escondeu de vez... A luz ainda dança pelas paredes encardidas. Entre um urso e o guarda roupa, ele a olha. Uma garota tão linda. Mas como pode isso? Como pode um monstro... Ela continua implorando para que ele apareça. Ele resolve então mostrar a ela sua face... Como ela reagiria? Afinal, garotas não se apaixonam por monstros... Ele pede, ao pé do ouvido dela que ela apague a luz do celular. Ela joga o celular debaixo do travesseiro. Ele pede para que ela fique com os olhos fechados por um instante. Ela cerra seus olhos imediatamente. Ele se aproxima de seu delicado rosto, e ela abre os olhos... Dois grandes olhos amarelados e brilhantes é a primeira coisa que vê. Cicatrizes pela face pálida e gélida, a boca negra com um leve sorriso sem jeito. Ela se assusta e ele some. Alguns instantes no silêncio. Desculpa! Apareça! E ele se aproxima novamente. Dessa vez coloca sua mão, tão branca e fria quanto as paredes do quarto, na face da garota em uma leve e delicada carícia. Ela em resposta coloca a mão sobre o rosto dele, e se aproxima. A pele da garota é quente, e seus olhos cheios de vida. O monstro aproxima sua face gélida e cheia de cicatrizes cada vez mais... Os olhos estão fixos um no outro. Ele vê dois olhinhos negros como o resto daquele quarto frio. Ela já não sente medo, e aproxima seus lábios da boca daquele que à alguns instantes lhe causava medo. Os lábios quentes dela tocam levemente os lábios negros e gelados do monstro. Nenhum dos dois fecha os olhos.
Pula da cama. coração disparado. Medo e paixão ao mesmo tempo. Onde está? Olha ao redor e reconhece seu quarto... O que foi isso? Foi tudo um sonho? Tanto faz. Seis horas. Precisa se arrumar para escola.
Entre um urso e o guarda roupa, ele a olha... A olha ir... Para ela foi um sonho apenas, mas para o monstro, a liberdade de sua alma. Atrás das cicatrizes, atrás das marcas e da aparência mórbida, bate ainda um coração vivo.
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